segunda-feira, 14 de maio de 2007

Teoria do caos (4)

Só para encerrar a série Caos. A ex-gerente de comunicação da Sanepar e eu temos algo em comum: gostamos de numerologia; eu por causa de Pitágoras; ela, crente na Cabala. No mais, não vejo nenhum sentido místico nos números. É que gosto de números pares - daí o capítulo 4 da teoria. No entanto, acabei aprendendo que o caos é também uma estratégia de administração. De larga aplicação em empresas do Estado. Ao invés de corrigir os erros do passado, vamos usar as mesmas técnicas. E os mesmos operadores - que nunca mudam, naquele estrato da alta administração profissional. Vide o Paranasan. Transparência, controle, eficiência só complicam. A estrutura não se molda pela relação entre a área e a função. Pode ser a regra, mas as exceções são curiosíssimas. Querem ver? Por que a gerência do Paranasan ficou subordinada à presidência? O lugar dela é a diretoria de investimentos. Vá lá que a comunicação social seja do presidente. Afinal ele - em tese - executa a política da empresa. Mas a área de auditoria interna na presidência? Isso é próprio do conselho de administração.

Teoria do caos (3)

Na crítica às despesas da comunicação social até que peguei leve. Mas na Sanepar só valia elogio. Não gostaram quando perguntei se conheciam a regra da impessoalidade, que está na constituição, tamanha a difusão no Diálogo à pessoa do presidente. Perguntei à gerente da época - aquela que saiu em janeiro passado, depois que o presidente do Conselho, Botto, pediu relatório sobre as despesas. (Afinal, começaram o inquérito? Terminaram o inquérito? Pode perguntar? Ou ofende?). A resposta veio protocolar, mas pesada: que perguntasse ao governador. Outra delicadeza, infantil não fosse maldosa: na edição seguinte do Diálogo (sempre com o mesmo luxo de impressão) veio uma foto minha. Descobriram que eu estava com ciúmes, também queria aparecer. Logo eu, feio como sou. Coincidência das coincidências, um desses jornais das reportagens de hoje deu três dias de notinhas ameaçando pessoas não nominadas de divulgação de dossiês - as pessoas eram facilmente identificáveis como o Botto e este que vos escreve. Por favor, queria eu, não acabem com o Diálogo, pois na Sanepar impera a superstição do resolvido: por que mudar o que existe há tanto tempo? Só usem o formato e o papel usado no tempo do Lerner. Daí entendi: se o Lerner oferece estrogonofe, nós oferecemos caviar.

A teoria do caos (2)

Quando bati as asas na Sanepar para reclamar dessas despesas - isso em junho de 2006 - eu só pensava no absurdo de ter lá uma revista bimestral, o Diálogo, distribuída internamente, com papel caro e impressão luxuosa, colorida, edição de 7 mil exemplares custando perto de 35 mil. Ah, sim, com farto registro fotográfico das andanças dos diretores, mostly o presidente. Além da revista, tem um portal de notícias e xeroxes diárias para diretores e gerentes da imprensa. Os diretores ainda recebiam até quatro jornais diários e revistas semanais. Fiquei chocado com o custo de uma gerência, a de comunicação social, com um terço dos funcionários de minha diretoria, sendo apenas 30% inferior ao desta. E a falta de eficiência da comunicação social no responder a tanta crítica na imprensa da Capital e interior aos problemas ambientais causados pela empresa. Falava isso para o Manda-Chuva, falava para o Batatinha. Nada. Virei o Guarda Belo deles lá. Quando levei para o Conselho de Administração - o presidente Botto autorizou que incluísse em pauta - foi o maremoto. Mexi na área sob supervisão direta do presidente da empresa, com crítica que podia respingar no diretor financeiro. Mas só porque o meteorologista do MIT aqui questionava eficiência e custo? Isso não é natural numa empresa? Não é normal na administração pública? Comecei a ver que lá vigorava um outro padrão de normalidade: a deles.

A teoria do caos (1)

A teoria do caos começou com estudos matemáticos para pesquisas climáticas. Coisa de 1955, lá no MIT, nos EUA. Uma diferença de números pequenos no cálculo pode levar a um desdobramento incontrolável de efeitos. A explicação didática: uma borboleta bate as asas no Ceará e provoca um maremoto na Indonésia. É o efeito borboleta. Isso me veio quando pensava no imbróglio das despesas do governo com os jornais, hoje de novo na imprensa, e com números. Alguém digitou errado algumas cifras dos PADV e veio o maremoto na imprensa. Claro que é proibido falar, pois impera o dogma da probidade absoluta, inquestionável, todos são santos e corretos - menos os que denunciam às claras (anonimamente, já pode tudo). A gente fala, fala, nada vai acontecer, talvez mudanças cosméticas, como diria o príncipe de Salinas, "é preciso que tudo mude, para que fique como está".

domingo, 13 de maio de 2007

Nissu propriu u santu

Tive que voltar ao blog. Raffaele Maria Distefano acaba de ligar com intimação para visitá-lo em Brienza, sul da Itália. Somos primos distantes, trisavô paterno comum, de quem ele herdou o nome; os bisavôs, Francesco Saverio, meu, veio ao Brasil, Giambattista, o dele, ficou por lá. Os nomes de santo enganam; nissu propriu u santu, como contava a bisnonna Mariangela, no dialeto de raiz siciliana. Raffaele Maria sai do terceiro mandato de sindaco, prefeito, de Brienza, querido por dois terços do paese. Brinco com ele: pudera, metade dos eleitores têm o mesmo sobrenome! Eleito sempre pela DS Democrazia di Sinistra, o legítimo herdeiro do antigo pardidão deles; qui siamo fedeli alle bandiere, me explicava quando o conheci, ainda no primeiro mandato. Quer companhia em viagem a Ragusa, sudeste da Sicília, de onde veio nosso tetravô Luciano. Pra me tentar lembrou que em Ragusa começaram as guerras púnicas, em que Asdrúbal e seu filho Aníbal deram tanto trabalho aos romanos. Sabe que nunca gostei de Júlio César, ditadores me cansam. Aceitei. Só não contei que o que me atrai a Ragusa é o príncipe de Salinas, personagem do Gattopardo. Raffaele tem alergia a ele, como a todos os aristocratas: questi non cambiano mai, me disse uma vez. Mas avisei ao primo: não conte comigo para ajudar em mais uma eleição.

Se...

Justo agora, quando eu pensava em roer a corda, ou descansar até segunda, chovem telefonemas perguntando do Se, do Rudyard Kipling. Uns querendo ler, outros revoltados porque eu disse que era leitura de auto-ajuda. Vai lá, na tradução de Guilherme de Almeida, que consegue ser melhor que o original. Tomei a liberdade de justificar - na acepção informática - a referência aos companheiros, bons e maus. Homenagem do MAX às mães de todos os companheiros.

Se...
Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao redor de ti já a perdeu e te culpa.
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para estes no entanto achar uma desculpa.

Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso.

Se és capaz de pensar — sem que a isto só te atires;
De sonhar - sem fazer dos sonhos teus senhores;

Se encontrando a Desgraça e o Triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a estes dois impostores.

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste;
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste.

Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder, e ao perder, sem nunca dizer nada, Resignado, tornar ao ponto-de-partida.
De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: "Resiste!"

Se és capaz de entre a plebe não te corromperes,
E entre reis não perder a naturalidade;
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade.

E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a Terra com tudo o que há no Mundo.
E o que é muito mais — és um homem, meu filho!

sábado, 12 de maio de 2007

De profundiis

De profundiis é do Salmo 130. Das profundezas a ti clamo, ó Senhor. (...) Se tu, Senhor, observares as iniquidades, Senhor, quem subsistirá? O salmo também foi usado por Oscar Wilde na cartinha para o namorado traidor. Ousado, esse uranista. E agora eu, tentando ser cristão, acusado de gay nas mensagens que recebo. Que não publico porque anônimas (os missivistas ainda não descobriram que existe IP). Gay que gosta de garotinhos. Gosto mesmo - e de garotinhas, cachorrinhas, galinhas (de preferência caipiras e com polenta), até coelhinhas - , tanto que o nome deste blog é homenagem a um garotinho. Tem um missivista que me chama de corcunda caolho, de 1,50, vesgo. Aí acerta na meia verdade. Caolho sim, efeito de cirurgia, e por isso também vesgo - até assumi este em criação quase literária. Corcunda, quase; desobedeci ao dr. Vialle quando recomendou RPG. Agora, 1,50 é maldade, doeu. Tenho 1,683, que disfarço com sapato de plataforma, calça com cintura baixa (como aquelas do Burt Reynolds) e outros recursos que não revelo. Isso só pode ser vingança de quem se identificou com Lara Cuervo, o mais bem acabado personagem da minha ficção. Não ofende, só diverte. Para minha sorte tenho excelentes amigos em todas essas categorias. E exemplos literários; além do O. Wilde o Gore Vidal, que uma vez perguntado sobre suas preferências saiu-se com esta: "no sexo já experimentei de tudo, menos crianças e animais. Mas ouvi dizer que o reino vegetal oferece imensas possibilidades". Não cheguei nem perto. Corcundas, teve o de Notre Dame, paradigma de justiça e humanidade, o Stephen Hawking, que vai viajar pelo espaço. Já caolhos, então, a lista é imensa e recito de memória: Sartre, Camões, Jack Elam, o melhor coadjuvante do faroeste, Moshe Dayan e Filipe da Macedônia - aquele que derrotou Ciro. Ciro, da Pérsia. No entanto, há gente que me acha bonito, sensual e charmoso. São pouca(o)s. Mas contam.
Dou folga de hoje até segunda, se agüentar e os "maus companheiros" permitirem - afinal, mandam no pedaço. Segunda-feira volto para dar batalha.
PS. Vou contar um segredo. Isso de maus companheiros - que acho uma contradição em termos - é coisa do Botto, que recita o SE, do Kipling, de trás para a frente. É o texto de auto-ajuda dele. Para Ele.